Cartas pedagógicas

Conversa pedagógica com a profa. Rosaura Soligo sobre “O trabalho com cartas na formação de professores”

Campinas, Julho de 2020.

Caros estudantes dos cursos de Licenciatura,

Tive a alegria de receber um convite instigante do Laconex@o para participar das Conversas Pedagógicas que compõem o site e escrever o que penso em relação a esta questão: Quando se trata do trabalho com cartas na formação de professores, que portas se abrem aos estudantes?.
Como entendi que os destinatários principais desta reflexão seriam vocês, e como a carta é um gênero que me encanta especialmente e que, desde adolescente, acabo sempre escolhendo como forma de registro de muitos dos meus textos, cá estou para dialogar sobre a potência das cartas na formação de professores da maneira mais coerente que, a meu ver, eu poderia: escrevendo uma carta para vocês.
Antes de abordar conceitualmente a questão que me foi proposta, acho importante contar para vocês que já escrevi, em forma de cartas, alguns capítulos de livros, um livro inteiro, uma dissertação de mestrado, uma tese de doutorado, orientações pedagógicas para professores, além das cartas mais comuns na vida pessoal – de amizade, de amor, de desabafo, de reivindicação, de protesto, de solidariedade ou para pôr pingos nos is. Organizei também alguns cursos para professores e formadores que aconteceram via cartas. A proposta é assim: incialmente eu lanço um tema, dentre os vários propostos na ementa do curso, com algumas questões para que cada um pense e registre por escrito em uma carta-resposta, que então eu respondo com novas questões, indicação de textos para estudo complementar, propostas de atividades formativas e problematizações, transcrevendo sempre trechos importantes das cartas recebidas, como citações. E assim sucessivamente, numa correspondência formativa, e intencionalmente dialógica, durante meses. Tive a enorme gratificação de saber de muitos profissionais que esses foram os melhores cursos que haviam feito até então, pois o que eu escrevia para eles era sempre ajustado às necessidades formativas que relatavam ou que eu mesma imaginava, ao ler o que me escreviam.
Compartilho aqui com vocês algumas destas cartas de diferentes tipos. E começo pela última, capítulo de um livro recente que reúne narrativas produzidas nos tempos difíceis da pandemia. Essa não foi uma carta muito fácil de escrever porque o distanciamento necessário para narrar uma história na qual estamos mergulhados é um processo complexo…
https://rosaurasoligo.wordpress.com/2020/07/15/carta-aos-que-virao-depois-de-nos/

Depois trago aqui o material de divulgação do livro de cartas, a que me referi:
https://rosaurasoligo.files.wordpress.com/2016/01/cartas-pedagc3b3gicas-sobre-a-docc3aancia-versc3a3o-reduzida-do-livro.pdf

E, agora, a carta inicial de um desses cursos constituídos por correspondências formativas:
https://rosaurasoligo.files.wordpress.com/2018/02/cforma-carta-1-rosaura-soligo.pdf

Por fim, a seguir, respectivamente, a dissertação de mestrado e a tese de doutorado, para que vocês deem uma olhada geral, quando desejarem. Gostei muito de documentar duas pesquisas acadêmicas em forma de cartas, e foi inesquecível ouvir do Professor Rui Canário, membro da banca de qualificação e defesa do mestrado, que o meu trabalho era original e inovador justamente por essa escolha pela forma de registro.

Aqui estão a dissertação e a tese:
http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/252100
http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/254034

Penso que esses exemplos talvez possam dizer mais sobre a importância das cartas, justamente por serem exemplos, do que as considerações conceituais que passo a fazer agora.
As razões que justificam a escolha reiterada pelas cartas como registros de diferentes gêneros, e em diferentes circunstâncias, são ao mesmo tempo políticas, linguísticas e filosóficas.
Vejamos por quê.
Sabemos o quanto escrever tem sido um desafio para muitas pessoas, em especial quando se tratam de textos mais formais, ainda mais quando são textos teóricos. Pois bem, o convite à escrita de cartas tem o poder de tornar o desafio possível para aqueles que temem, de algum modo, registrar os seus dizeres. Porque o gênero, nesse caso, é muito familiar; a existência de um interlocutor explícito e real, com quem se vai ‘dialogar’ em um gênero conhecido, favorece a escrita; a perspectiva de tratar de assuntos que fazem sentido para ambos – autor da carta e destinatário – contribui para que as condições de produção não sejam tão adversas. E quando há expectativa de ver o próprio texto compartilhado de alguma forma, então as possibilidades podem se ampliar, se potencializar.
Logo, se defendemos a importância e o direito de os educadores tornarem públicos os seus textos, se temos esse compromisso e também a disponibilidade de ser solidários com eles, talvez seja o caso de provocá-los então. Para que se animem a escrever mais, muito e sobre o que desejarem.
Bem, o fato é que, para escrever o que desejamos quando estamos temerosos, a carta pode ser o melhor caminho. Porque é um gênero democrático, flexível, que admite contravenções e pode abrigar qualquer tipo de conteúdo. Já pensaram nisso? Talvez nenhum outro gênero tenha a vantagem de acolher todas as nossas invenções, por mais atípicas que sejam. Nas cartas podemos narrar, argumentar, descrever, expor. E incluir excertos de outros gêneros que, embora não se convertam em cartas só porque nelas foram inseridos ou anexados, ao se alojarem em suas páginas acabam se misturando com elas e, dessa forma, em um certo sentido, constituindo-as. Isso passa a ser mais recorrente e mais evidente a partir do momento em que se tornam disponíveis os recursos de edição que permitem inserir no corpo do texto digitado o que antes, em tempos de cartas manuscritas ou mesmo já quando datilografadas, por certo permaneceria na condição de anexos.
Tudo vale nas cartas.
Reparem nesta aqui, que lhes escrevo… Fosse um gênero acadêmico, não seria de bom tom incluir uma porção de links com exemplos, antes de desenvolver teoricamente a ideia que justifica a escrita do texto. Tampouco seriam razoáveis certas transgressões que aqui faço para tentar convencê-los do quanto esse gênero epistolar é potente e privilegiado como registro. Também não seria o caso de escrever na primeira pessoa do singular, em tom coloquial, fazendo gracejos ora divertidos ora pretensamente literários, dialogando com os interlocutores para quem escrevo – vocês!
O que poderiam ser considerados erros em outros gêneros, são escolhas bem-vindas nas cartas. Pensem nisso.
Há milênios tem gente se ocupando do que representam as cartas para nós, humanos, vejam só… Ao abordar a escrita de si em O que é um autor?, Michel Foucault explica lindamente o pensamento de Sêneca, um filósofo incrível que viveu dois mil anos atrás:

A carta enviada atua, em virtude do próprio gesto da escrita, sobre aquele que a envia, assim como atua, pela leitura e a releitura, sobre aquele que a recebe. … Faz o escritor presente àquele a quem a dirige. E presente não apenas pelas informações que lhe dá acerca de sua vida, das suas atividades, dos seus sucessos e fracassos, das suas venturas e infortúnios; presente de uma espécie de presença imediata e quase física.
Escrever é mostrar-se, dar-se a ver, fazer aparecer o rosto próprio junto ao outro. … A carta é simultaneamente um olhar que se volta para o destinatário (por meio da carta que recebe ele se sente olhado) e uma maneira de o remetente se oferecer ao seu olhar pelo que de si mesmo lhe diz. De certo modo, a carta proporciona um face-a-face. … A carta que, na sua qualidade de exercício, trabalha no sentido da subjetivação do discurso verdadeiro, da sua assimilação e da sua elaboração como bem próprio, constitui também e ao mesmo tempo uma objetivação da alma.

Não é o máximo esse tipo de reflexão?!
Hoje não é mais preciso enviar mensageiros ou enfrentar filas no correio, como em outros tempos, a materialidade mudou, podemos escrever no computador e encaminhar nossas cartas pela internet, fazendo-as chegar aos destinatários no mesmo instante em que são enviadas. Mas, na essência, são cartas, sempre foram. Tornam possível o registro contextualizado na interlocução real, a preservação da memória, a comunicação de tudo o que se deseja, o posicionamento em relação a questões de qualquer tipo, a narração de si.
O fato é que a carta é um gênero de valor, um recurso valioso, mas pouco valorizado, infelizmente. Se concordamos com isso, será preciso superar os preconceitos que com o tempo se cristalizaram e deram a esse gênero um lugar social inferior ao que de fato merece.
Por fim, a título de provocação reflexiva, trago aqui um breve texto que escrevi há muitos anos e, como ainda continua valendo, de vez em quando o copio para encerrar considerações como estas, sobre o que penso das cartas:
Se houvesse essa categoria, talvez pudéssemos dizer que os textos acadêmicos são antônimos das cartas.

Em geral, eles são impessoais. Elas não.
Em geral, eles escondem as intenções. Elas não.
Em geral, eles são difíceis. Elas não.
Em geral, eles são formais. Elas não.
Em geral, eles se fazem passar por outros. Elas não.
Em geral, eles não são produzidos com desejo. Elas sim.
Em geral, eles não são manipulados com prazer. Elas sim.
Em geral, eles não têm emoção. Elas sim.
Em geral, eles não são acessíveis. Elas sim.
Em geral, eles não são sedutores. Elas sim.
Em geral, eles não são procurados. Elas sim.
Em geral, eles são masculinos. Elas são femininas quase sempre.
Em geral. Apenas em geral.

Então, caros estudantes, retomando a questão que aqui me trouxe – Quando se trata do trabalho com cartas na formação de professores, que portas se abrem aos estudantes? – eu diria que, tendo em conta o que vim argumentando até agora, muitas portas, e as melhores possíveis. Porque o uso das cartas na formação, na pesquisa acadêmica e na vida abre um horizonte de possibilidades que, até onde a minha vista alcança, nenhum outro gênero é capaz.
Espero ter contribuído de algum modo para evidenciar a potência das cartas. E me permito um conselho, muito simples, a vocês: escrevam cartas!
Devo ainda, a pedido, deixar uma mensagem para vocês e para os professores formadores das licenciaturas no Brasil, considerando, sobretudo, o desafio de dar à escrita, no contexto da formação docente, um sentido “novo” e, também, maior autonomia para quem escreve.
É esta a minha mensagem:
Por razões várias, muitas vezes nos sentimos menos, menores, ninguéns. Por razões várias, muitas vezes tememos as situações em que nos encontramos, os contextos, os processos, os outros. Por razões várias, muitas vezes escrever é difícil, muito difícil, e o olhar exigente do leitor (real ou suposto) aumenta ainda mais o nosso sentimento de impotência, o nosso medo. Mas acreditem: as coisas não precisam ser assim! Se pudermos fazer escolhas que nos fortaleçam e tornem tudo isso mais leve, se pudermos contar com parceiros críticos que nos apoiem solidariamente, se pudermos encontrar as melhores condições de produção dos nossos textos, os caminhos com certeza serão outros. Quando se trata da escrita, a escolha pela carta como forma de registro é um desses caminhos. Porque sabemos escrevê-las, temos muito a dizer sobre o que fazemos e pensamos, e certamente haverá sempre quem se interesse pelo que podemos contar. Então escrevam! Como diria Clarice Lispector, escrever pode ser uma salvação.

Saudações fraternas,
Rosaura Soligo

PS1. Sobre os cursos de formação via cartas, a que eu me referi no início, aqui vocês encontrarão o relato reflexivo sobre um deles:
https://rosaurasoligo.files.wordpress.com/2017/08/rosaura-soligo-uma-experic3aancia-potente-de-formac3a7c3a3o-para-a-docc3aancia-1.pdf
Esse texto foi produzido para um Seminário que ocorreu em 2017, na Unicamp, e é esta a referência completa:
Rosaura Soligo. Uma experiência potente de formação para a docência. In: ANAIS DO SEMINÁRIO FALA OUTRA ESCOLA, 2017. Anais eletrônicos… Campinas, Galoá, 2017. Disponível em: <https://proceedings.science/fala-outra-escola-2017/papers/uma-experiencia-potente-de-formacao-para-a-docencia?lang=pt-br>

Sobre a profa. Rosaura Soligo
Formada em Psicologia e Pedagogia, mestre e doutora pela Faculdade de Educação da UNICAMP, pesquisadora do GEPEC – Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada, na mesma universidade. É coordenadora de projetos do Instituto Abaporu de Educação e Cultura, parceiro de várias Secretarias de Educação no Brasil. Possui experiência com alfabetização, ensino de Língua Portuguesa, formação continuada, elaboração de projetos, gestão, assessoria pedagógica, documentação da prática profissional, produção de material didático e vídeos educativos. É autora de livros, publicações institucionais e outros textos na área da educação. Integra o GLEACE – Grupo Latinoamericano de Especialistas en Alfabetización y Cultura Escrita e a BIOgraph – Associação Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica. Incentiva pessoas a escrever e coordena alguns projetos destinados a essa finalidade e abertos à participação de quaisquer interessados: www.facebook.com/DesAmorosas é um deles.

Para conhecer mais sobre o trabalho da profa. Rosaura Soligo acesse:
https://rosaurasoligositeoficial.wordpress.com/
Blog Formação e Outros Textos

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Carta pedagógica (?) – Carta pedagógica sim: Mamanguape (PB), maio de 2020

Prezad@s,

Antes de tudo, queremos dizer-lhes que precisamos cultivar uma admiração pela própria formação e pela profissão docente, encontrar e alimentar o sentido de formar novos professores e, em especial, permanecer vigilantes e críticos em relação a tudo que nos desencanta com a docência. Entendemos, aliás, que formar professores só faz sentido quando a própria docência faz sentido dentro de nós. Precisamos, assim, nos constituir, cada vez mais, docentes coerentes e, por consequência, construir uma formação docente com sentido, pois não conseguiremos formar para a docência aqueles que não encontram sentido no magistério.

Por isso, é preciso criar o desejo em quem não quer a docência; é preciso recriar e construir o desejo nos estudantes pela formação e pela profissão docente… Este é um dos nossos desafios pedagógicos atuais no contexto das licenciaturas: reconstruir para evidenciar o sentido de querer ser e exercer a docência. Temos argumentado que, se há algo que distingue os bons professores, é a capacidade de inscrever os estudantes em uma experiência educativa insubstituível de formação e desenvolvimento pessoal e profissional, individual e coletiva.

Em uma mesma perspectiva, queremos enfatizar a necessidade de recursos pedagógicos que coloquem os estudantes das licenciaturas diante do desafio de escrever livremente, com coragem e ousadia, sobre suas próprias dúvidas, medos, crenças, valores, histórias e experiências, mas, principalmente, que promovam um autoconhecimento mais acurado e preserve a independência interior dos estudantes em apre(e)nder a docência. Sabemos bem que esse estilo não segue, muitas vezes, as regras da escrita acadêmica. Contudo, essa prática é “(…) uma poderosa arma de comunicação, capaz de estabelecer vínculos e importantes relações sociais”. [Pois,] escrever é “eternizar no papel palavras que permanecerão gravadas ao longo do tempo” (SILVA; GASPAR, 2018, p. 209).

Car@s, essas reflexões que acabam de ser postas em destaque são fundamentais para situarmos a importância da Carta pedagógica na formação dos professores como instrumento de reflexão e (trans) formação. Diríamos que investir na escrita de Cartas pedagógicas com os estudantes é um processo que temos de fazer sempre. Sendo assim, a exemplo de Paulo Freire, que possamos escrever Cartas pedagógicas como instrumentos de autonomia, de indignação e, sobretudo, de esperança (Utopias) diante dos desafios que o contexto político-social nos impõe…

Saudações!

* Nota: Excertos editados do artigo: Araújo; Fortunato (2020).

REFERÊNCIAS:

ARAUJO, Osmar Hélio; FORTUNATO, Ivan. De professor formador para professor formador: quatro desafios para formar para a docência nas licenciaturas. Educação em perspectiva, 2020.

SILVA, Haíla Ivanilda; GASPAR, Mônica. Estágio supervisionado: a relação teoria e prática reflexiva na formação de professores do curso de Licenciatura em Pedagogia. Rev. Bras. Estud. Pedagog. vol. 99 no. 251 Brasília Jan./Apr. 2018.

Partilhamos aqui um conjunto de artigos e obras que poderão apoiar o trabalho com Cartas pedagógicas na formação de professores…

BERNARDES, Anita Guazzelli; TAVARES, Gilead Marchezi; MORAES, Marcia (Orgs.). CARTAS PARA PENSAR: políticas e pesquisa em psicologia. Vitória: EDUFES, 2014.

CAMPELLO, Ronaldo Luís; FARINA, Cynthia. As cartas que escrevo… Uma escrita, várias linhas, uma prática de ensino. Revista Pedagógica, Chapecó, v. 17, n. 35, p. 259-272, maio/ago. 2015.

CAMPELLO, Ronaldo Luís; FARINA, Cynthia. CARTAS: UMA PRÁTICA INTERDISCIPLINAR DE ENSINO. Revista Seminário de História da Arte, Volume 01, Nº 07, 2018.

Carla Netto ; Carla Spagnolo ; José Florentino ; Lisandra Amaral ; Silvana Zancan ; PORTAL, L. L. F. . Cartas: um instrumento desvelador que faz a diferença no processo educacional. Educação Por Escrito, v. 3, p. 14, 2012.

MORAES, Ana Cristina de; PAIVA, Darlan Lima. Cartas Pedagógicas: reflexões de docentes da educação básica e superior. Fortaleza: EdUECE, 2018.

NETTO, Carla et al. Cartas: um instrumento desvelador que faz a diferença no processo educacional. Revista Educação por Escrito – PUCRS, v.3, n.1, jul. 2012.

PAULO, Fernanda dos Santos; DICKMANN, Ivo (Orgs.). Cartas pedagógicas: tópicos epistêmico-metodológicos na educação popular. 1. ed. – Chapecó: Livrologia, 2020. (Coleção Paulo Freire; v. 2).

SOLIGO, Rosaura Angélica. Cartas pedagógicas sobre a docência, SP: GFK, 2016.

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