Conversas pedagógicas

Queremos construir Conversas Pedagógicas como espaços informais afetivos/efetivos para a escuta, a reflexão e o debate, numa postura de diálogo, como práxis, sobre a formação/profissão DOCENTE.

A nossa convocação para conversarmos é uma forma de chamar todos, estudantes, professores e demais profissionais da educação, para o (des)envolvimento e a participação necessária na formação/profissão DOCENTE. Este é o desafio maior: construir diálogos afetivos/efetivos integrados – integradores – como instrumentos para se elevar a qualidade da formação dos professores.

As nossas Conversas Pedagógicas exigem, assim, o envolvimento de cada um, simultaneamente, ensinando e apre(e)ndendo, pois “[…] quem forma se forma e re-forma ao formar, e quem é formado forma-se e forma ao ser formado” (FREIRE, 1996, p. 23).

Desde já, agradecemos a tod@s que aceitam (aceitaram/aceitarão) conversar conosco sobre o passado, o presente e o futuro da formação/profissão DOCENTE.

REFERÊNCIAS:
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.


PEDAGOGIA, como ciência da/para a educação, nas diversas licenciaturas: por que e para quê?

Nossa experiência no campo das licenciaturas no Brasil tem revelado que muitos estudantes que cursam, ou que já iniciaram um curso de licenciatura, querem acessar os conhecimentos da docência, sobretudo do campo da Pedagogia. Por outro lado, existem aqueles que querem apreender tão somente os conhecimentos da sua área específica de formação, seja Física, Matemática, Português, entre outras. Inclusive, nesses casos, disciplinas de cunho pedagógico tendem a ser menosprezadas pelos próprios estudantes, que valorizam mais o conhecimento específico do curso que escolheram. Temos acompanhado também, muitas vezes, uma formação inicial de professores que não dialoga com a Pedagogia, e, às vezes, muitos professores formadores buscam transportar a formação docente tão somente para essas áreas específicas da formação docente. Temos acompanhado, assim, contextos de formação docente em que se desconhece, ou desconsidera, muitas vezes, o valor da Pedagogia na formação dos professores (ARAÚJO; FORTUNATO, 2020). Por isso, perguntamos-lhe: Apre(e)nder sobre Pedagogia, como ciência da/para a educação, nas diversas licenciaturas: por que e para quê?


Conversa pedagógica com a Profa. Flávia Vieira

PEDAGOGIA, como ciência da/para a educação, nas diversas licenciaturas: por que e para quê?

Profa. Flávia Vieira:

Considero que um bom professor tem de ser, obrigatoriamente, alguém que vê e vá além da sua disciplina.

Esta frase, escrita por Silvy Ferreira no seu relatório final de estágio, resume o que significa para ela ser ‘um bom professor’. Não basta saber muito da disciplina que se ensina. É preciso ver e ir além da disciplina. A sua ideia será o mote para a minha reflexão acerca da questão que me foi lançada e que resulta da constatação de uma certa desvalorização das disciplinas pedagógicas na formação de professores:

Apre(e)nder sobre Pedagogia, como ciência da/para a educação, nas diversas licenciaturas: por que e para quê?

Fui estudante de uma licenciatura antes de me tornar formadora de professores na universidade onde trabalho até hoje. Lembro-me de um dos meus professores de então, muito respeitado na academia, que eu admirava pelo seu conhecimento e pelo entusiasmo com que transmitia o seu conhecimento a uma plateia silenciosa e atenta. Recordo que esse professor, um excelente especialista da matéria que ensinava, nunca nos olhava nos olhos, nunca nos fazia perguntas ou queria saber das nossas ideias, falando ininterruptamente como se estivesse a ditar um texto sagrado que nós religiosamente copiávamos para o nosso caderno e depois reproduzíamos nos testes. Este professor era o exemplo perfeito de alguém que vive para a sua disciplina, mas não para os seus alunos.

Muitos dirão que ensinar é uma arte e não uma ciência, e por isso não é necessário cursar disciplinas da área da pedagogia. De facto, podemos falar de uma ‘arte de bem ensinar’. O bom professor imagina cenários de aprendizagem, o que vulgarmente se chama ‘planificação’, mas que é mais uma espécie de ‘arquitetura pedagógica’; explora com os estudantes a magia das palavras e das ideias, interagindo com eles com sabedoria, entusiasmo e empatia, e deixando-os expressar e discutir livremente aquilo que pensam; transforma a sua turma numa ‘comunidade de aprendizagem’ colaborativa e solidária; encontra soluções criativas para resolver situações imprevistas e problemáticas; reinventa as suas práticas de mil e uma maneiras…

Mas será que tudo isto surge ‘naturalmente’, só através da experiência de ensinar? Todos sabemos que não. A experiência é importante, sim, mas tem de ser acompanhada de conhecimento pedagógico e capacidade de (inov)ação pedagógica. O adjetivo ‘pedagógico/a’ significa aqui que o conhecimento e a capacidade do professor adquirem uma função educativa, para si e para os estudantes, estando ao serviço do desenvolvimento de ambos. Há professores que, apesar de experientes, como o meu professor de licenciatura, não manifestam esse conhecimento ou essa capacidade. E há professores que, sendo pouco experientes, como a Silvy, começam a manifestá-los desde cedo. Mas há também muitos professores como eu: vão evoluindo ao longo do tempo.

Quando iniciei funções na universidade, há mais de três décadas atrás, recém-licenciada, o meu entusiasmo era tão grande como o meu medo de falhar. A inexperiência é inimiga da confiança, mesmo quando na licenciatura cursamos disciplinas pedagógicas, como era o meu caso. Sabia muito pouco do conteúdo específico que estava a ensinar pela primeira vez, e por isso a minha prioridade era estudar e transmitir esse conteúdo de forma rigorosa. Lembro-me de ter gravado e ouvido em casa a minha primeira aula, uma espécie de treino do meu ‘discurso’ para que tudo ‘saísse certo’. Preocupava-me com os estudantes, queria que eles aprendessem bem, mas ainda não estava em condições de ver e ir além da disciplina que ensinava.

O que mudou de lá para cá na minha abordagem pedagógica? Quase tudo. Progressivamente, fui-me centrando cada vez mais nos estudantes e nas suas aprendizagens. Percebi que o conteúdo de uma disciplina não se reduz ao campo do saber (saber que, saber sobre…), abrangendo também os campos do saber fazer e do saber ser e estar. Seria melhor falar de competências, como um conjunto de conhecimentos, capacidades, atitudes e valores que podem ser desenvolvidos na aprendizagem de uma determinada disciplina, e isto obriga a uma pedagogia que vá muito além da transmissão. Não me bastava ensinar sobre a disciplina que ensinava. Tinha de fazer com que os estudantes relacionassem a disciplina com outras disciplinas do seu currículo, e também com a sua experiência; levá-los a desenvolver uma atitude crítica face ao conhecimento e à experiência; envolvê-los na construção de competências através de metodologias que apelassem à sua participação e autonomia; observá-los e ouvi-los atentamente, de forma a compreender e transformar as nossas práticas… enfim, tinha de ver e ir além da disciplina que ensinava, e fui aprendendo a fazer isso ao longo dos anos.

Como disse atrás, na licenciatura eu já tinha cursado disciplinas que estudam a educação – história da educação, sociologia da educação, psicologia da educação, desenvolvimento curricular, didática…  Na altura em que as estudei, percebia que eram importantes, mas foi sobretudo depois, no exercício da profissão, que lhes vi maior valor. Isso é muito frequente e até compreensível, uma vez que, enquanto estudantes, temos alguma dificuldade em antever a importância dessas disciplinas para uma prática profissional que ainda está para vir. Mas isso também se deve a alguns ‘erros de perspetiva’ nos cursos de formação de professores.

O primeiro ‘erro de perspetiva’ é encarar e ensinar as disciplinas pedagógicas de forma excessivamente teórica, afastada do terreno da prática e dos interesses e necessidades dos estudantes, como eu comecei por fazer no início da minha carreira. Quando os estudantes chegam às escolas, logo durante o estágio, é como se de repente esquecessem tudo o que aprenderam ou não conseguissem perceber a relação daqueles saberes com a prática. Ao longo dos anos, ouvi muitos estagiários dizerem que o que haviam estudado era demasiado idealista, pouco ou nada aplicável na prática. O ‘choque da realidade’, como muitos lhe têm chamado, pode levá-los a deixar de acreditar naquilo que aprenderam. E aqui vem o segundo ‘erro de perspetiva’, que consiste em pensar que o conhecimento educacional é um conhecimento ‘certo’ que pode ser diretamente ‘aplicado’ à prática. Se assim fosse, já teríamos descoberto um método de ensinar que fosse infalível em qualquer circunstância. Acontece que, na educação, as circunstâncias são exatamente aquilo que impede a adoção de um método único. Como nos diz Donald Schön, os ‘terrenos pantanosos’ da prática exigem um profissional reflexivo, capaz de construir conhecimento a partir da reflexão na ação e sobre a ação. Uma conceção do professor como mero ‘executor técnico’ de um saber pré-definido é não só ingénua e irrealista, como também antidemocrática, porque nega ao professor o seu papel de intelectual crítico e agente de mudança.

As disciplinas que estudam a educação não são ciências exatas, mas apoiam o professor na compreensão dos fenómenos educativos, na reflexão e na tomada de decisões, na compreensão e transformação das suas práticas. Embora não substituam a sua forma pessoal de pensar e agir, expandem-na e tornam-na mais sustentada e aberta à mudança. Como diz Wilfred Carr, as teorias educacionais não causam a mudança, mas podem ser colocadas ao serviço da causa da mudança.

[…]

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Sobre a profa. Flávia Vieira

Professora da Universidade do Minho (UMinho), Braga | Portugal.


Formar (-se) para a docência nas licenciaturas

Temos acompanhado, no exercício diário como professores formadores em cursos de licenciatura no Brasil, muitos estudantes reconhecerem a importância da docência como pilar de transformação social. Ao mesmo tempo, temos percebido que nem todos eles se veem na profissão. Alguns até aceitam que a essência das licenciaturas é formar para a docência, mas não encontram sentido neste contexto e, por isso, às vezes, não chegam a se comprometer decisivamente com a formação e a profissão docente. A questão do sentido (por que e para quê) de estar em um curso de licenciatura é uma das perguntas mais angustiantes que se e nos fazem muitos estudantes (ARAÚJO; FORTUNATO, 2020)[i]. Sendo assim, perguntamos-lhe: O que nós podemos oferecer (dizer) aos estudantes que escolhem o magistério como campo de formação e futura profissão?

[i] Araújo, O. H. A., & Fortunato, I. (2020). De professor formador para professor formador: quatro desafios para formar para a docência nas licenciaturas. Educação Em Perspectiva, 11, e020004. https://doi.org/10.22294/eduper/ppge/ufv.v11i.8962.


Conversa pedagógica com o Prof. Rui Canário

Sobre  O que nós podemos oferecer (dizer) aos estudantes que escolhem o magistério como campo de formação e futura profissão?, o prof. Rui Canário assim escreveu:

Tenho muito gosto em responder à pergunta colocada:

“O futuro é completamente incerto e avesso a previsões de natureza determinista. Está em aberto e será o resultado das escolhas que os seres humanos serão chamados a fazer nas próximas décadas. A educação é o que nos permite pensar e problematizar o futuro orientando as nossas escolhas. Estamos confrontados com desigualdades sociais chocantes (incluindo as desigualdades de género), com um recrudescimento das tiranias a nível mundial, com défices democráticos profundos que acompanham o reforço dos nacionalismos, da xenofobia e do racismo. Estamos perante uma época de charneira em termos civilizacionais. É através da educação que poderemos criar modos de vida coletiva que se oponha à barbárie social que nos ameaça”. 

“A escola terá futuro se souber cumprir a sua missão de promover a igualdade de oportunidades educativas para todos, em especial para os ‘esfarrapados’ a quem Paulo Freire dedicou ‘A pedagogia do oprimido’. O professor, como educador profissional, tem um papel central a desenvolver na promoção social do conhecimento humano, bem como na construção de respostas aos problemas da desigualdade social, da exploração do trabalho e às ameaças ambientais e sanitárias. Tendo como referência central a pessoa do aluno, pede-se ao professor que possa estabelecer vínculos férteis entre a escola e a comunidade local.”

Rui Canário
07 de junho de 2020
Lisboa | Portugal

Sobre o prof. Rui Canário
Professor Catedrático aposentado do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa | Portugal.

Ao prof. Rui Canário, nossa gratidão pela gentil contribuição que alargará os nossos horizontes profissionais e, porque não dizer, pessoais.
Laconex@o | UFPB.

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Conversa pedagógica com o Prof. Miguel A. Zabalza

Neste movimento – Formar (-se) para a docência nas licenciaturas – sentimos a necessidade de suscitar sempre novos olhares e debates, motivação, entusiasmo, saberes e comprometimento com a formação e a profissão DOCENTE… Nessa perspectiva, procuramos conversar brevemente com o prof. Miguel A. Zabalza sobre: O que nós podemos oferecer (dizer) aos estudantes que escolhem o magistério como campo de formação e futura profissão?

Prof. Miguel A. Zabalza: É uma pergunta complexa que requer uma resposta complexa. Poderíamos considerar a profissão de professor como uma grande chácara organizada em vários níveis. Primeiro, encontramos um grande portão que nos dá acesso a um grande pátio que é a profissão de professor. Uma vez naquela sala, você ainda teria que tomar decisões diferentes para decidir sobre uma das muitas portas existentes naquele pátio para acessar outros aposentos internos bastante diferentes: os níveis educacionais nos quais exercer a profissão.

PRIMEIRO PÁTIO 

A profissão docente é um desses espaços profissionais e de trabalho cheios de expectativas contraditórias. Por um lado, tem um forte apelo a todas as pessoas com alto nível de empatia, solidariedade, humanismo e desejo de ajudar os outros, especialmente os mais jovens. Todas essas virtudes sendo muito abertas para o exterior, para o social, para o trabalho a favor dos outros, não é estranho que seja especialmente atraente para os espíritos sensíveis, abertos à compaixão, ao bem comum.

Provavelmente é por isso que atrai especialmente as mulheres. Por outro lado, não é tão atraente para os que buscam o desenvolvimento pessoal, o sucesso profissional, a conquista de metas altas em termos econômicos, prestígio pessoal e ressonância social. É uma carreira que tinha uma forte carga de misticismo e de lírica (quando os professores eram heróis, quando esperavam que as pessoas aumentassem seu nível cultural e habilidades profissionais, quando os professores tinham a capacidade de transformar a sociedade em um espaço mais equitativo e com menos diferenças sociais). Os professores eram líderes sociais, eram modelos morais, eram personagens relevantes e essenciais na trama social.

O século XX foi o século das promessas não cumpridas no que se refere à educação. Não apenas não conseguiu resolver a desigualdade social, mas também colaborou para aumentá-la. É verdade que foi através da educação que muitas pessoas das classes mais baixas conseguiram ascender para profissões superiores e se localizar em zonas intermediárias do ordenamento social. Mas, em nível global, as diferenças não diminuíram e a educação acabou se tornando mais um mecanismo do sistema, assimilando-se às diferenças que, supostamente, estava destinada a eliminar. E assim houve uma educação para os ricos e uma educação para os pobres.

Tudo isso acabou afetando a própria profissão docente, atolada em uma certa irrelevância social, pelo menos do ponto de vista da cultura, do desenvolvimento econômico e da proeminência social. A generalização da educação fez com que a classe social dos docentes fosse aumentando exponencialmente; fez com que ao serem muitos os  professores seu salário decrescera; fez com que a diminuição dos salários levasse à perda de atrativo como profissão. E assim, apesar de ninguém questionar a importância da educação (de fato, todos os políticos a destacam em seus programas e as grandes Agências Internacionais a incluem em suas Agendas para o Desenvolvimento Global), a profissão de professor se tornou uma opção secundária da qual escapam os alunos mais brilhantes procurando profissões mais lucrativas e com um futuro pessoal melhor. Existem exceções, com certeza, mas são precisamente porque essa deserção se tornou a regra geral.

Em suma, a profissão docente é chamada a recuperar a função social necessária à preservação de uma sociedade educada com valores coletivos. A educação é chamada a amalgamar a sociedade, dar sentido a ela como uma realidade coletiva e solidária. Às vezes discuto com colegas médicos que têm muito orgulho em defender que a profissão deles é superior a qualquer outra. “Você não vai comparar, eles me dizem, um médico com um professor!” “Se não houvesse professores, costumo respondê-los, não haveria médicos”. E somos tão importantes porque cumprimos (ou deveríamos cumprir) duas funções fundamentais:

  1. Criamos as condições para que exista consenso social. Ou seja, socializarmos para que possamos viver juntos: falar a mesma língua e nos entendermos, conhecer nossa história e nos respeitarmos, aprender as regras de convivência, possuir aquela cultura compartilhada que faz com que possamos nos entender, relacionar, trabalhar, desfrutar juntos.
  2. Somos os principais agentes, juntamente com as famílias, chamados a facilitar e promover o desenvolvimento pessoal de cada indivíduo, de cada criança que chega às nossas salas de aula. Desenvolver não apenas como membro de um grupo social (como indicado no ponto anterior), mas como sujeito individual, como um ser distinto, com suas peculiaridades, suas diferenças, suas capacidades. Ajudar cada sujeito a ser ele mesmo.

É por isso que a profissão de professor é tão importante. Hoje, é impossível conceber uma sociedade sem escolas e sem professores. Nós não entenderíamos, não funcionaria, não é possível.

[…]

Em resumo, e voltando à pergunta inicial que você me perguntou, o que pode ser destacado é que a profissão de professor pode ser uma opção muito interessante para muitas pessoas. De fato, o é. E o interessante é que seu apelo não está em motivações extrínsecas (salário, relevância social, sucesso pessoal), mas sim em suas condições intrínsecas: poder ajudar os outros, permanecer em um campo de conhecimento que gostamos, o ser capaz de crescer pessoalmente através de estudo constante, o próprio fato de ensinar o que sabemos e gostamos. Se essas condições gerais existirem, temos que decidir por um momento ou etapa educacional ao qual gostaríamos de nos dedicar. Cada uma exigirá condições diferentes para o ingresso nelas. E faremos bem em considerá-las, porque o oposto pode significar que, em vez de desfrutar ser professor, acabamos sofrendo a punição de uma atividade pesada que causa burnout e angústia para quem não gosta.

Miguel A. Zabalza
Professor Emérito da Universidade de Santiago de Compostela, Espanha.

* Tradução: André Luiz Lanza

Sobre o prof. Miguel A. Zabalza
Professor Emérito da Universidade de Santiago de Compostela, Espanha.

Ao prof. Miguel A. Zabalza, os nossos mais sinceros e efusivos agradecimentos!!
Laconex@o | UFPB.

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Conversa pedagógica com o Prof. António Nóvoa

Prof. Antônio Nóvoa, precisamos muito poder escutá-lo, dentre outros temas, sobre “Formar (-se) para a docência nas licenciaturas”, pois temos sentido que é um tema que inquieta a todos.

Prof. António Nóvoa: Michel Serres, esse extraordinário filósofo francês, faleceu o ano passado. Em 2012, escreveu uma obra notável, A polegarzinha, na qual falava sobre as consequências do digital para a educação. Muito antes da COVID-19, já ele nos alertava para processos que, hoje, estão à vista de todos.

Para mim, o seu livro mais importante é O terceiro instruído, publicado em 1991. Li e reli mil vezes este livro, que inspirou tantos dos meus escritos e palestras. Durante muito tempo não me apercebi do real significado das duas últimas linhas do livro, impressas num final de página, quase como se estivessem ali a mais.

Re-nascido, ele conhece, ele tem compaixão.

Agora sim, ele pode ensinar.

Depois de muitas leituras sem atender a estas linhas, descubro nelas o sentido maior da profissão docente.

Re-nascido

A primeira coisa que devemos dizer a quem abraça o magistério é que precisamos de fazer sobre nós mesmos um trabalho de re-nascimento. Ser professor não é entrar numa profissão técnica ou mecânica, é construir um caminho que junta aquilo que somos como pessoas e aqueles que seremos como profissionais. Na docência trabalhamos com as humanidades dos outros, os nossos alunos, e nunca seremos capazes de o fazer se não nos dedicarmos também a cultivar a nossa própria humanidade. Nós somos como ensinamos e ensinamos aquilo que somos.

Ele conhece

A segunda coisa que devemos explicar é a importância do conhecimento. A missão de um professor é conduzir os alunos ao conhecimento: não podemos desvalorizar o conhecimento para nos centrarmos apenas nos alunos, nem podemos ignorar os alunos para nos dedicarmos unicamente ao conhecimento. A tensão conhecimento-alunos está no coração da profissão docente e do trabalho dos professores.

           Ele tem compaixão

A terceira coisa que devemos lembrar é o sentido da compaixão, no sentido filosófico do termo. Entrega. Cuidado. Dedicação. Envolvimento. Compromisso. Ninguém é professor na indiferença. Ser professor é colocar-se ao serviço dos alunos, dos seus projectos e das suas aspirações. Ser professor é conseguir que cada aluno vá o mais longe possível no seu próprio caminho.

           Agora sim, ele pode ensinar

Se formos capazes deste triplo trabalho – re-nascimento, conhecimento e compaixão – então, sim, podemos dizer-nos professores, estaremos em condições de ensinar.

Eis as três coisas que devemos dizer a quem quer ser professor. Devemos falar-lhes da importância da docência para a humanidade, sobretudo para combater as desigualdades e para promover uma sociedade mais inclusiva e equitativa. Devemos falar-lhes do papel central dos professores, no passado e no futuro. Devemos dizer-lhes que os professores são insubstituíveis para educar as crianças e os jovens, e que nunca serão substituídos nem pela mais perfeita máquina.

Não devemos esconder as dificuldades dos professores, tanto do ponto de vista das suas condições de trabalho como da falta de reconhecimento social. Mas é preciso, também, falar da docência pela positiva, mostrar os exemplos extraordinários que existem em todo o mundo – de professores dedicados, competentes, responsáveis, criativos. É nestes professores, nestas professoras, que devemos inspirar-nos para chamar às licenciaturas todos aqueles, todas aquelas, que sentem vontade de abraçar a profissão mais difícil, e também a mais importante, que a humanidade inventou.

Re-nascida, ela conhece, ela tem compaixão.

Agora sim, ela pode ensinar.

António Nóvoa
29 de Maio de 2020.

Sobre o prof. António Nóvoa
Professor catedrático do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Reitor honorário da Universidade de Lisboa | Portugal.

Ao prof. António Nóvoa, nossa gratidão e admiração sempre!!
Laconex@o | UFPB

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